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Uma leitura cínica sobre os nossos tempos

  • Juliana Vannucchi
  • 2 de nov. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 18 de nov. de 2020

Por Juliana Vannucchi


O cinismo foi um movimento filosófico que se estendeu do século IV a.C. até o século V d.C. Seu principal expoente foi Diógenes de Sinope, mais conhecido como “o Cão”, apelido esse que o acompanhou durante a vida e que, aparentemente, foi bem recebido pelo filósofo.


Um dos traços mais importantes do cinismo é o fato de que os filósofos pertencentes a esse movimento viviam de uma maneira simples e prezavam pela independência dos bens materiais. Esses aspectos se justificam pelo fato de que, para o cínico, um dos principais meios para a aquisição da felicidade é a autarquia, isto é, a autossuficiência. Diógenes foi o grande símbolo dessa característica cínica: conforme nos conta a tradição, morava dentro de um barril, alimentava-se de restos de comida e não acumulava bens materiais. Por isso, pode-se compreender que a pobreza para ele foi transformada em virtude e, assim, o mínimo era visto como suficiente e o suficiente era a porta de entrada para o estado de tranquilidade interior. Essa referida ética cínica englobava também o desprezo pela fama, pelo acúmulo de dinheiro, pelas etiquetas, reverências e status, pois para os cínicos esses elementos eram vistos como obstáculos para a construção de uma vida feliz.


Se fizermos um diagnóstico da nossa sociedade atual, que tem como um de seus principais traços o consumo e as redes sociais, logo notaremos que a maior parte das pessoas vive seu cotidiano de uma maneira bem divergente da proposta ética dos cínicos. Em nossos tempos, o consumo impera no meio social e é um fenômeno que ocorre tanto no espaço físico quanto no espaço virtual. A aquisição ou até mesmo o acúmulo de bens não necessários é algo corriqueiro na vida da maior parte das pessoas. Em certas ocasiões, consome-se apenas para se preencher um vazio. Ademais, as pessoas não buscam somente encher-se de objetos comprados, mas também se esforçam para acumular aquilo que lhes possibilita a compra: o dinheiro - este grande aliado do capitalismo, fio condutor da felicidade e maestro da sociedade de consumo. Observamos, portanto, que neste presente tempo e espaço nos quais a humanidade se encontra desajustada, estamos trilhando um caminho social e individual que segue exatamente na contramão da essência ética proposta pelos cínicos.


Somado a isso, é pertinente citarmos o quanto os desdobramentos ecológicos desse universo consumista são demasiadamente trágicos. Nesse cenário, tratam-se os recursos naturais finitos como se fossem simplesmente inesgotáveis. Em tal contexto, lembremo-nos do célebre momento em que Alexandre, o Grande, se dispôs a oferecer a Diógenes o que ele quisesse. O Cão, prontamente, respondeu ao imperador que apenas gostaria que ele se afastasse de seu sol (D.L. VI.38). Esse acontecimento ilustra o valor que Diógenes atribuía aos elementos da natureza e mostra como era possível satisfazer-se com eles, pois o sol lhe bastava, satisfazia-lhe, já gerava o conforto necessário para que vivesse uma existência agradável. Diógenes não pretendia obter nenhuma possível riqueza do conquistador. Contudo, atualmente, conforme já antecipado acima, diante de tantos impulsos consumistas, a natureza definitivamente não se encontra em primeiro plano. Por sinal, parece que poucas pessoas têm algum prazer simplesmente em sentir a luz do sol em seu corpo (a não ser, talvez, que essa pessoa esteja numa praia paradisíaca e luxuosa, e que a luz se reflita nela de uma maneira favorável para que ela possa tirar uma foto propícia para seu Instagram e receber muitos “likes”). E aliás, as redes sociais, em geral, também conduzem as pessoas a viver uma realidade distante das propostas cínicas, uma vez que normalmente não são utilizadas para fins de comunicação, mas sim como vitrine de vaidade, de bens adquiridos, de gastos que se fazem e de posições sociais que se ocupam. As redes, dessa forma, tornam-se vazias e fúteis, refletindo, talvez, aquilo que a grande parte de seus próprios usuários é – em resumo, as redes são o equivalente moderno daquilo que os cínicos chamavam de typhos, o orgulho que ofusca a clareza da razão. E fica claro que as pessoas se apegam excessivamente não apenas às redes, mas aos próprios aparelhos digitais, enquanto os cínicos, por sua vez, valorizavam justamente o desapego das coisas e a ideia de que elas não têm real importância. Eles prezavam pelo autodomínio e, no que diz respeito às redes sociais, a maior parte das pessoas ao redor do globo, ao invés de possuir autodomínio, é assombrosamente dominada – talvez até mesmo controlada.


Há várias outras reflexões que poderíamos tecer em relação ao mundo moderno e ao precioso legado deixado pelo cinismo. Mas, em geral, parece-me que em nossos tempos o ser humano incorporou em sua rotina, ainda que em graus diversos e maneiras variadas, tudo aquilo que os cínicos evitavam (fama, luxo, excesso de bens materiais) e, de certa forma, transformou isso em valores que devem ser alcançados. Diógenes, suponho, estaria desapontado com o nosso mundo atual e, provavelmente, morderia muitas pessoas que cruzassem seu caminho!

 
 
 

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