Seria o cinismo uma forma de hybrids?
- Juliana Vannucchi
- 27 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de fev. de 2021
Por Juliana Vannucchi
Há quem classifique o cinismo como uma corrente filosófica composta por exageros e desmedidas de cunho comportamental e teórico. Mas seria de fato o cinismo uma espécie de hybrids? Isto é, poderia essa escola do período helenístico ser classificada como uma filosofia de excesso, de descomedimento e de insolência? Essa é uma questão deveras interessante e capaz de render inúmeras argumentações, discussões variadas e posicionamentos distintos. Neste texto, levantaremos algumas possibilidades reflexivas e problematizações referentes a essa pergunta.
Consta no Dicionário Filosófico (p.520) de Nicola Abbagnano a seguinte definição a respeito da hybris: “Com este termo, intraduzível para as línguas modernas, os gregos entenderam qualquer violação da norma da medida, ou seja, dos limites que o homem deve encontrar em suas relações com os outros homens, com a divindade e com a ordem das coisas” [...]. A partir dessa caracterização e pensando especificamente no cinismo, podemos considerar que, certamente, determinadas atitudes extravagantes de Diógenes de Sínope desencadeiam possíveis correlações dessa filosofia com a hybris - ou, até mesmo, não apenas analogias entre ambas, mas uma efetiva categorização do cinismo como sendo, essencialmente, uma forma de hybris. Há anedotas sobre a vida do filósofo que corroboram para isso. Uma delas é bastante conhecida: certa vez, durante uma recepção oferecida por Platão a amigos vindos da parte de Dionísios, Diógenes pisou em seus tapetes e disse: “Estou pisando na vanglória de Platão.” A resposta de Platão foi: “Quanto orgulho demonstras, Diógenes; embora queiras parecer imune a ele!” Outros autores dizem que Diógenes falou: “Piso no orgulho de Platão”, e este replicou: “Com outra espécie de orgulho, Diógenes!”" (D.L. 6.44). Nesse caso em específico, talvez a hybris apareça como typhos, ou seja, como orgulho. Além desse mencionado encontro entre os dois célebres filósofos gregos, há outros aspectos do comportamento radical do cão que também podem contribuir para aqueles que argumentam que o cinismo violava limites e, por isso, seria uma forma de hybris: conta-se, por exemplo, que ele urinava e defecava em locais públicos, além de se alimentar de restos de alimentos. Isso não apenas deveria incomodar seus contemporâneos, mas ainda em nossos tempos costuma gerar certo incômodo em muitas pessoas que estudam e/ou conhecem esse lendário filósofo. Inclusive, para alguns, essas atitudes seriam apenas desvarios e teimosias, que não carregavam conteúdo filosófico. Quem pensa dessa forma desconsidera aspectos fundamentais do cinismo. Tenha-se em mente que ironizar e debochar eram provocações características do cinismo, que tinham o intuito de levar as pessoas a se indagarem a respeito de seu modo de vida, de seu comportamento, de sua submissão, de seus acúmulos materiais e requintes e também a respeito de outras questões.

Nesse ponto de nossa reflexão, também se torna válido mencionar a parrhesía e que, em suma, pode ser descrita como uma fala franca, ou seja, é a liberdade da palavra, o ato de se falar o que pensa, sem refrear, sem mensurar e, sendo assim, não deixa de ser uma forma hybris. E não só a parrhesía, a anaideia (despudor) também, uma vez que as anedotas de Diógenes por vezes se referem apenas a ações e não palavras. Os cínicos usam da linguagem corporal para veicularem sua filosofia. Há, enfim, outras anedotas e traços do cinismo que, de alguma maneira, podem aproximá-lo da hybris.
Por outro lado, não podemos deixar de considerar que Diógenes de Sínope fez justamente da simplicidade uma virtude e deixou como um de seus valiosos legados morais a lição de que é possível encontrar conforto vivendo com o mínimo possível. Afinal, o combate aos excessos materiais e inutilidades e, em contraponto, o incentivo para que as pessoas buscassem viver em conformidade com seu estado de natureza foram pontos importantes no contexto geral da filosofia cínica, para a qual era possível ser feliz dispondo do mínimo, portanto, não havia necessidade de exageros. O famoso encontro do cão com o poderoso Alexandre, o Grande, traduz muito bem esses aspectos aqui mencionados: Diógenes estava descansando debaixo do sol, quando o imperador apareceu diante dele, dizendo que o andarilho poderia escolher para si o que quisesse. A resposta do filósofo foi arrebatadora e sucinta: “Afasta-te do meu sol” (D.L. 6.38). Isso significa que o sol bastava para contentá-lo, assim como deve bastar para contentar também aos outros.
Responder de maneira objetiva a questão levantada no título deste texto pode ser uma armadilha. Certamente, conforme já esclarecido anteriormente, estudiosos, pesquisadores e críticos tecerão argumentos variados em torno da pergunta. Navia, por exemplo, afirma que a hybris é a “primeira falha trágica do cinismo” (1996, p. 104). Contudo, é importante esclarecer que, independentemente da resposta que se possa oferecer, há um apontamento que devemos ter em mente: o fato de o cinismo poder ser considerado uma forma de hybris não lhe tira o valor. Seus ensinamentos e legados continuam sendo imensamente valiosos. Ademais, por vezes, talvez os excessos sejam necessários e os limites das convenções devam ser ultrapassados, e isso significa que a hybris não é, necessária e fundamentalmente, algo negativo. Portanto, responda-se o que for, mas tenha-se em mente que categorizar o cinismo como uma forma de hybris não é o suficiente para desmerecê-lo.
Referências:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
NAVIA, L. E. Classical Cynicism: A critical study. Westport, Connecticut and London: Greenwood Press, 1996.
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